quinta-feira, 10 de julho de 2008

Martha Medeiros

DESCONSTRUÇÕES

Quando a gente conhece uma pessoa, construímos uma imagem dela.
Esta imagem tem a ver um pouco com o que ela é de verdade, tem um pouco a ver comas nossas expectativas e tem muito a ver com o que ela “vende” de si mesma.
É pelo resultado disso tudo que nos apaixonamos.
Se esta pessoa for bem parecida com a imagem que projetou em nós, desfazer-se deste amor, mais tarde, não será tão penoso.
Restará a saudade, talvez uma pequena mágoa, mas nada que resista por muito tempo.
No final, sobreviverão as boas lembranças.
Mas se esta pessoa “inventou” um personagem e você caiu na arapuca, aí,somado à dor da separação, virá um processo mais lento e sofrido: a dedesconstrução daquela pessoa que você achou que era real.
Desconstruindo Flávia, desconstruindo Gilson, desconstruindoMarcelo.
Milhares de pessoas estão vivendo seus dias aparentemente numa boa,mas por dentro estão desconstruindo ilusões, tudo porque se apaixonaram poruma fraude, não por alguém autêntico.
Ok, é natural que, numa aproximação, a gente “venda” mais nossas qualidades que defeitos. Ninguém vai iniciar uma história dizendo: muito prazer, eu sou arrogante, preguiçoso e cleptomaníaco.
Nada disso, é a hora de fazer charme. Mas isso é no começo.
Uma vez o romance engatado, aí as defesas são postas de lado e a gentemostra quem realmente é, nossas gracinhas e nossas imperfeições.
Isso se formos honestos.
Os desonestos do amor são aqueles que fabricam idéias eatitudes, até que um dia cansam da brincadeira, deixam cair a máscara e ooutro fica ali, atônito.
Quem se apaixonou por um falsário, tem que desconstruí-lo para se desapaixonar.
É um sufoco. Exige que você reconheça que foi seduzido por uma fantasia, que você é capaz de se deixar confundir, que o seu desejo de amar é mais forte do que sua astúcia.
Significa encarar que alguém por quem você dedicou um sentimento nobre e verdadeiro não chegou a existir, tudo não passou de uma representação – e olha, talvez até não tenha sido por mal, pode ser que esta pessoa nem conheça a si mesma, por isso ela se inventa.
A gente resiste muito em aceitar que alguém que amamos não é, e nem nunca foi, especial.
Que sorte quando a gente sabe com quem está lidando: mesmo que venha a desamá-lo um dia, tudo o que foi construído se manterá de pé.

4 comentários:

Chay Fernandes disse...

Comumente eu me sinto uma fraude... às vezes eu acho que sou. Principalmente quando meus sentimentos e reações fogem do padrão comum, o meu padrão de passar por cima de certas coisas... mas é difícil conciliar sentimentos com escolhas... entre o que sinto e o que é certo, prefiro, e tento, escolher o que penso ser o certo... e não é sempre que eu concordo com o que sinto... depois de ler esse texto, penso que devo entrar num processo de desconstrução da imagem que criei de mim mesma... por que eu devo me manter assim, se algumas vezes essa roupa me parece tão desconfortável?

Mas esse pensamento não tem profundidade... entre mudar o meu comportamento isolador, amargo e super-protetor para comigo mesma, prefiro me afastar do objeto dissonante enquanto posso. Será que posso?

Fred disse...

Como anda o seu processo de desconstrução? O meu vai caminhando a passos largos.
Beijos e saudades.

Chay disse...

Meu plano de reconstrução é uma bela porcaria.

Chay Fernandes disse...

Aogra sim, começando a melhorar!!! =]