quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Um Conto de Fadas Imoral - O Trovador




Ela ouvia aqueles discos velhos da sua infância e bebia um vinho naquela velha casa de madeira. Sua avó já morrera a muito. Alguns vultos passavam pela janela. Olhos grandes. Nariz grande. Boca grande. Vultos vorazes passavam pela janela e Chayenne rememorava sua infância. Não sabia o motivo. Na verdade não sabia sequer por que voltara para essa casa velha caindo aos pedaços. Tudo está empoeirado. Não há energia. Somente uma mesa, algumas camas de palha, uma velha poltrona cheia de traças e um antigo toca discos à manivela que, não se sabe como, ainda funcionava e tocava os velhos e saudosos Long-plays. Isso tudo rememorava sua infância.

Nunca mais fora à casa de sua avó depois do acontecido. Foi para a cidade com seu tio.

Chayenne abriu a mala que havia trago consigo e tirou uma longa capa vermelha que acompanhava um capuz. Era muito parecida com aquela da sua infância, porém ela não sabia o motivo deste sentimento estranho que pairava sobre sua cabeça. Lembrava de várias coisas e se lembrava que algo muito importante acontecera nesse seu passado obscuro, fazendo-a mudar para a cidade, só não sabia o que era. De alguma forma era tudo tão vago, tão distante, tão impossível. As poucas coisas que vinham à cabeça pareciam até conto de fadas. Nada parecia real.

Ela vestiu a sua capa vermelha e começou a andar pelo bosque. Perto dalí alguns lenhadores tiravam o que iria lhes servir.

- Ei! Ei você! Cuidado por onde anda, moça. Ah lobos rondando por aqui! - um dos lenhadores a advertiu.

- Tudo bem! Não se preocupe. Não é proibido cortas essas árvores?

- Er... Sim, mas alguns de nós temos licença para tirar um tanto para o nosso sustento. Aqui ainda não tem energia elétrica então somos obrigados a usar lareiras e fogões à lenha. Aqui não é como a cidade, de onde você parece ter vindo.

Chayenne pediu desculpas e o lenhador tornou a adverti-la sobre os lobos. Chay acenou e se despediu.

Sentia já ter visto essa cena antes. Oh sim! Já vira. Há muito tempo. Quando ela usava uma capa vermelha muito menor do que essa que sua avó havia feito. Como era? Qual era mesmo o nome? Oh sim! Capinha Vermelha... era assim que a chamavam. É mesmo! Lembrava-se enquanto caminhava distraidamente. Até sua mãe a chamava de Capinha.

Para onde ia agora? Dessa vez ela entrava na mata deliberadamente. Sua mãe não a proibia mais de fazer mais nada. Na verdade nem mãe ela tinha mais. Quando fora a última vez que a vira? Oh sim! Foi no caixão. Na verdade depois de ter saído com o tio para a cidade, ela nunca mais viu a mãe. Então num dia qualquer, como esses dias quaisquer em que a única coisa que se faz é trabalhar, seu chefe a chamou dizendo que ela recebera uma ligação importante de seu primo que tinha ido visitar a mãe de Chayenne. Ele trazia notícias. Má notícia. A mãe dela havia morrido.

Agora dois anos após a morte de sua mãe, Capinha retornou a este estranho lugar, onde os fantasmas do seu estranho e fantasioso passado a aguardavam.

E para onde ia? Levar doces para alguém? Sua avó já morrera. Não tinha mais ninguém. Leva uma cesta sim, mas não com doces apenas. As folhas batiam umas nas outras ao soprar do vento deixando a mata ainda mais tenebrosa.

Lembrou-se da adolescência. Tornou-se uma garota libidinosa. Foi pega inúmeras vezes fazendo o que não devia dentro da escola. Levou incontáveis palmatórias. Foi expulsa várias vezes. Sentia-se um lobo faminto. Tirou a virgindade do primo. E do primo do primo. Para ela era tudo uma festa. Até que seu lobo interior adormeceu e junto com ele o seu fogo foi ficando pequeno. Jamais apagou, mas tornou-se, de uma floresta em chamas, uma pequena vela que é colocada ao lado das camas para iluminar a noite quando faltava luz elétrica em casa.

Agora tudo parecia mudar. Sentia seu lobo acordar novamente. Mas parecia que ele tinha saído de dentro dela. Algo muito estranho acontecia. Uma lembrança do passado? Um passado negro? Não sabia.

"Oh Capinha, tira tua roupa e deita-te aqui comigo, sua avózinha"*
"Mas que grandes olhos são esses teus?"
"São para melhor te enxergar"
"E esses braços, também, tão grandes?"
"São para melhor te abraçar"
"E essa tua boca tão grande?"
"É para te comer!"

Ouviu-se um uivo e Chayenne acordou de seus estranhos pesadelos extremamente assustada. Estava encostada numa árvore. Olhou em volta e começou a ver sombras, vultos muito estranhos. Um medo assolava sua mente, mas um calor inebriante aquecia todo o seu corpo. De onde vinha esse calor. Não sabia. Logo ela viu a sombra de um lobo, mas logo essa sombra mostrava algo anormal: o lobo parecia ficar de pé.

O medo de Capinha diminuía pouco a pouco ao mesmo tempo em que o calor aumentava. O lobo pô-se a frente à mulher. Ele ofegava. E logo perguntou aonde ela iria. Capinha fitou o lobo com o mesmo olhar que tinha na adolescência, e então descobriu de onde vinha todo esse seu fogo, abriu um largo sorriso e finalmente respondeu lambendo os lábios:
"Não vou a lugar algum".

7 comentários:

Chay Fernandes disse...

Conto (maravilhoso por sinal) gentilmente cedido pelo meu amigo O Torvador.

Poucas pessoas conseguiram captar tão bem a ess~encia da Chay.

Muito obrigada, Trova.

:D

ihi excavator disse...

help me.

wheeled loader disse...

i think you add more info about it.

westendorf loader disse...

yeah! its much better,

O Trovador disse...

Oi Chay,

Fico feliz que você tenha gostado do conto e a imagem ficou perfeita.

Você tem essa imagem num tamanho maior? Se tiver me passe por email, ;)

Beijos!

Dolores disse...

Simplismente FANTÁSTICO!!!!

CLAP CLAP CLAP!!!!

FredPontes disse...

Muito bom mesmo. Parabéns, Trovador.